Tempos difíceis

11:29 PM


Aquele não seria mais um jantar comum. Uma atmosfera diferente pairava sobre a mesa familiar e o som dos talheres tentava inutilmente romper o constrangimento provocado por aquele silêncio. Aquilo era mais que um silêncio comum, era expectativa. No fundo todos sabiam que aquilo um dia iria acontecer. Desde a infância os vizinhos faziam comentários maldosos. A família sempre achou tudo um absurdo, afinal, era apenas uma criança. Era.
- Não sou mais uma criança. – disse o filho.
Incrível! Foi como se ele lesse os pensamentos. Tudo estava ocorrendo conforme parecia que ia ocorrer, embora ninguém desejasse. Se tudo seguisse assim, logo chegaria a hora em que ele contaria o que ninguém queria ouvir.
- Família, eu preciso contar uma coisa...
Lá vinha a bomba. O coração poderia explodir a qualquer momento, tamanha era a ansiedade.
-... Eu sou hetero. Eu gosto de mulher.
A família rompeu em pranto. Haviam criado o filho com tanto amor, tanto carinho, para agora ele vir com aquela conversa. Aonde teriam errado? Há quem defenda que a heterossexualidade seja um fator biológico, mas está claro que é puro desvio comportamental, nada que a boa e velha cinta não resolva! Agora que ele assumira sua condição todos os indícios apresentados antes passavam como um filme pela cabeça dos pais: o fato de ele nunca ter dado muita atenção para os álbuns da Lady Gaga ou o constrangimento em usar a expressão “aloka!”agora faziam sentido.
Após a revelação em casa, o novo assumido decidiu tocar a sua vida. Abandonou o nome de Tifanye decidiu que a partir de agora seu nome seria João. Não foi fácil. Ele teve que aturar que aquilo não era uma coisa natural e que arderia no fogo rosa do inferno gay por seus pecados, segundo a Igreja Abafa Jesus das Divindades Divas. Esta mesma instituição possuía uma grande bancada no Congresso, onde tentavam implantar projetos como a Cura Hetero e barrar a criminalização da heterofobia.
Era difícil para João até mesmo andar na rua, onde ouvia xingamentos como “Ui, seu macho!”, mas mesmo assim ele decidiu militar por sua causa. O mundo uma hora teria de aprender a respeitar as diferenças. Que importava aos outros se ele gostava de mulher? Afinal, cada um é cada um! Mas esse que parecia um argumento tão óbvio era rebatido por comentários como “os héteros podem fazer o que quiserem na sua intimidade, mas eu não sou obrigado a sair na rua e ver um homem beijando uma mulher!”.
Aqueles eram tempos difíceis, mas João mudaria o mundo. Tinha isso em mente. Seus olhos brilhavam de emoção e confiança no futuro, mas de repente a escuridão foi tudo que viu.
João foi assassinado enquanto andava na rua, atacado por um grupo de homossexuais que o agrediram com uma barra de ferro simplesmente por não aceitarem sua condição sexual. Seus sonhos agora entrariam em estado de putrefação junto com seu corpo.
Devido à coragem de João em aceitar-se e enfrentar todas as adversidades simplesmente para poder ser quem de fato era, deveria ser instaurado um dia do orgulho heterossexual para servir de exemplo!
Não, melhor não. Esqueçam essa parte. Meus filhos poderiam ver gente como ele e serem influenciados. Não que eu tenha algo contra os heterossexuais, até tenho amigos que são. Mas se as crianças vissem isso, não sei o que seria do pequeno Kimberly e da recém-nascida Paulão.





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