A República: somos tão jovens.


15 de novembro de 1889: a histórica data em que o Marechal Deodoro da Fonseca assinou o manifesto de proclamação da república brasileira, dando um fim à monarquia e exilando da pátria amada D. Pedro II junto com a família imperial. Agora uma nova era iniciava-se. Um novo sol havia de raiar. A felicidade, a liberdade e o amor seriam uma realidade e uma verdade incontestáveis nas terras tupiniquins. Certo? Quase.
Bem, as coisas não mudam da noite para o dia. “O apressado come cru” já dizia a vó de todo mundo. Os primeiros anos do novo regime político ficaram conhecidos como “República da Espada” devido à repressão a quem ainda apoiava ideias monarquistas. Século passado, sabe como é, ainda não havíamos amadurecido para saber conviver com pensamentos antagônicos, mas a fé no futuro era mais forte, seríamos uma grande nação! Éramos tão jovens!
Agora uma nova cadeia de cem anos despontava no horizonte. O século XX haveria de trazer novos ares, mudar a cabeça das pessoas. A felicidade, a liberdade e o amor seriam uma realidade e uma verdade incontestáveis nas terras tupiniquins. Certo? Calma, pra que a pressa?
Grandes passos foram dados nessa nova era, apesar das duas repressivas ditaduras militares, das ideias extremistas que afastavam amigos e familiares, da falta de diálogo e da dificuldade de convivência com diferenças em várias esferas. Isso também é coisa de um século anterior, outra mentalidade, cabeças antigas, ainda não havíamos amadurecido para saber conviver com pensamentos antagônicos, mas a fé no futuro era mais forte, seríamos uma grande nação! Éramos tão jovens!
Vivemos agora no século XXI, a era digital, a vida conectada, o império dos smartphones. Somos ágeis, sagazes, profundos conhecedores sobre tudo devido ao bombardeio de informações que nos atinge diariamente. A felicidade, a liberdade e o amor agora possuem terreno fértil para transformarem-se em uma realidade e em uma verdade incontestáveis nas terras tupiniquins. Certo? Ei, por que você tá rindo?
A revolução digital nos proporcionou uma interação mais direta com tudo mundo. Isso aproximou as pessoas. Podemos agora, instantaneamente, com pessoas do mundo todo, xingar, ofender, humilhar, debochar de toda e qualquer ideia oposta. Mesmo que não saibamos muita coisa sobre essa ideia oposta, tampouco sobre a nossa própria ideia (embasada profundamente em títulos de links de artigos e matérias não lidas).
Neste novo século e milênio mostramos nossa evolução, nossa superioridade em relação a nossos antepassados, enquanto discutimos qual é a maior tragédia – lamentar todas? Escolha um lado, imbecil! -, a “doutrinação ideológica” que as escolas fazem quando tentam combater alguma forma de discriminação, a “falta de rola” das mulheres que insistem em direitos iguais e em andar de roupa curta sem serem apalpadas, o exército que os homossexuais estão montando para destruir a família tradicional e o direito que temos de reprimir violentamente tudo que atente à nossa tão intocável moral social.
É, ainda somos tão jovens. Bem jovens. Crianças. Crianças mimadas e malcriadas.

Meu Deus, alguém chame a Super Nanny! 

Tempos difíceis


Aquele não seria mais um jantar comum. Uma atmosfera diferente pairava sobre a mesa familiar e o som dos talheres tentava inutilmente romper o constrangimento provocado por aquele silêncio. Aquilo era mais que um silêncio comum, era expectativa. No fundo todos sabiam que aquilo um dia iria acontecer. Desde a infância os vizinhos faziam comentários maldosos. A família sempre achou tudo um absurdo, afinal, era apenas uma criança. Era.
- Não sou mais uma criança. – disse o filho.
Incrível! Foi como se ele lesse os pensamentos. Tudo estava ocorrendo conforme parecia que ia ocorrer, embora ninguém desejasse. Se tudo seguisse assim, logo chegaria a hora em que ele contaria o que ninguém queria ouvir.
- Família, eu preciso contar uma coisa...
Lá vinha a bomba. O coração poderia explodir a qualquer momento, tamanha era a ansiedade.
-... Eu sou hetero. Eu gosto de mulher.
A família rompeu em pranto. Haviam criado o filho com tanto amor, tanto carinho, para agora ele vir com aquela conversa. Aonde teriam errado? Há quem defenda que a heterossexualidade seja um fator biológico, mas está claro que é puro desvio comportamental, nada que a boa e velha cinta não resolva! Agora que ele assumira sua condição todos os indícios apresentados antes passavam como um filme pela cabeça dos pais: o fato de ele nunca ter dado muita atenção para os álbuns da Lady Gaga ou o constrangimento em usar a expressão “aloka!”agora faziam sentido.
Após a revelação em casa, o novo assumido decidiu tocar a sua vida. Abandonou o nome de Tifanye decidiu que a partir de agora seu nome seria João. Não foi fácil. Ele teve que aturar que aquilo não era uma coisa natural e que arderia no fogo rosa do inferno gay por seus pecados, segundo a Igreja Abafa Jesus das Divindades Divas. Esta mesma instituição possuía uma grande bancada no Congresso, onde tentavam implantar projetos como a Cura Hetero e barrar a criminalização da heterofobia.
Era difícil para João até mesmo andar na rua, onde ouvia xingamentos como “Ui, seu macho!”, mas mesmo assim ele decidiu militar por sua causa. O mundo uma hora teria de aprender a respeitar as diferenças. Que importava aos outros se ele gostava de mulher? Afinal, cada um é cada um! Mas esse que parecia um argumento tão óbvio era rebatido por comentários como “os héteros podem fazer o que quiserem na sua intimidade, mas eu não sou obrigado a sair na rua e ver um homem beijando uma mulher!”.
Aqueles eram tempos difíceis, mas João mudaria o mundo. Tinha isso em mente. Seus olhos brilhavam de emoção e confiança no futuro, mas de repente a escuridão foi tudo que viu.
João foi assassinado enquanto andava na rua, atacado por um grupo de homossexuais que o agrediram com uma barra de ferro simplesmente por não aceitarem sua condição sexual. Seus sonhos agora entrariam em estado de putrefação junto com seu corpo.
Devido à coragem de João em aceitar-se e enfrentar todas as adversidades simplesmente para poder ser quem de fato era, deveria ser instaurado um dia do orgulho heterossexual para servir de exemplo!
Não, melhor não. Esqueçam essa parte. Meus filhos poderiam ver gente como ele e serem influenciados. Não que eu tenha algo contra os heterossexuais, até tenho amigos que são. Mas se as crianças vissem isso, não sei o que seria do pequeno Kimberly e da recém-nascida Paulão.





O início de um sonho...


É com grande orgulho que apresentamos Crônicas de um dia qualquer, criado por mim, Victoria, e pelo meu grande amor, Mário. O blog partiu de uma ideia espontânea, de partilhar com todos nossos textos - reflexões da vida. 
Apesar do título, esse não é um blog apenas de crônicas. Buscamos deste termo a ideia de registrar algo, mas não nos limitaremos a apenas este gênero textual. Nem nos limitaremos à temática alguma. Podemos ser sérios, cultos, politizados, poéticos ou bancarmos escancaradamente o grande ridículo que há em nós. 
Todos os dias passamos por uma montanha-russa de emoções e cada ser humano acaba tendo mil facetas despertas por aquilo que está sentindo. Portanto, nosso compromisso é com a palavra, com trasformarmos em texto aquilo que o dia nos proporcionou. Nosso compromisso é fazer crônicas de um dia qualquer. 

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